EDITORIAL - A HIPOCRISIA DOS SUVs

Por Gustavo do Carmo 


Em janeiro, o portal UOL publicou uma matéria, assinada por Alessandro Reis, que listava cinco sedãs médios que não acompanharam o líder de mercado Toyota Corolla e saíram de linha. Ou seja, cinco sedãs que não conseguiram vender mais ou o equivalente ao modelo japonês. 


As marcas concorrentes não assumem essa derrota, claro. Dizem apenas que os consumidores estão preferindo os utilitários esportivos. Acontece que algumas montadoras dificilmente substituem esses cinco sedãs que eu vou citar por SUVs de porte equivalente. Quando fazem, como a Ford, a Volkswagen e a própria Toyota, trazem modelos menores, fabricados ou projetados na China ou Tailândia. 

Renault Kadjar. Na foto de capa, o Koleos


O primeiro exemplo citado na matéria é o Renault Fluence, derivado do Mégane da geração anterior, que foi vendido no Brasil entre 2011 e 2017. Seu modelo similar é o Kadjar, lançado originalmente em 2015, que nunca veio. A marca do losango chegou a especular, para variar, um projeto mais simples e mais barato, Mas até agora nenhuma notícia dele. O antecessor do Kadjar, o Koleos, que cresceu de segmento, chegou a ser anunciado no país. Mas a sua importação foi cancelada. A desculpa foi a alta do dólar (usada desde a primeira forte desvalorização do Real em 1999). Os dois foram falados no Guscar.


Outro argumento usado por montadoras para não trazer bons modelos médios e grandes são os altos impostos. Engraçado é que elas querem alíquotas baixas (e o Governo não pode ficar baixando agora por causa da pandemia, pois prejudica a arrecadação), mas não repassam o desconto nem quando começam a fabricar o carro no Brasil. Este aí foi um dos motivos, ou melhor, uma das desculpas, para o fechamento das fábricas da Ford, assunto que falei mais detalhadamente em outro editorial.

 

Ford Escape ou Kuga


A mesma Ford, no caso o Focus, é mais um exemplo do que eu vou chamar de "Hipocrisia dos SUVs". Seu similar seria o Escape, que uma hora falam que vem, outra falam que não vem. Quem virá, com certeza e com a mesma plataforma, será o Bronco Sport, que tem um estilo rústico. Mas, por enquanto, só temos o Territory, daquele país que criou o coronavírus em laboratório. E o sucessor do Fusion, teoricamente o Edge, restrito à versão esportiva ST e muito mais caro, pode ser outro xing-ling. E ainda tem o Explorer, vendido no Brasil em gerações passadas nos anos 90 e hoje disponível na Europa em versão atual. No Brasil? Vai sonhando! 


Ainda fora da lista da matéria do UOL, a Ford desistiu até do Ecosport, ao encerrar a sua produção com o fechamento da fábrica de Camaçari (BA). O projeto para a terceira geração do utilitário seria em projeto com a indiana Tata, mas foi cancelado. Virou uma incógnita. 


Outro compacto, o Peugeot 2008, também não deve vir. Seria fabricado na Argentina, como o hatch 208, mas parece que a Peugeot desistiu. 


Peugeot 2008


Conterrânea e sócia da Peugeot, a Citroën também prometeu o C5 Aircross e a nova geração do C3 Aircross, mas até agora nada. 


Nova integrante do grupo PSA, a Fiat deixou de trazer o 500L porque estava preparando o 500 X, com mais cara de crossover. Mas este não veio para não bater de frente com o Jeep Renegade, que usa a mesma plataforma e agora integra o novo conglomerado Stellantis. 


Citroën C5 Aircross


A General Motors até que tem o Chevrolet Equinox, mas ainda não chegou a sua versão com face-lift. O Tracker foi projetado na China. Já outros modelos como Blazer, Trailblazer compacta, Traverse, Tahoe e Suburban, nem pensar... 


Chevrolet Traverse


Mitsubishi Lancer (Outlander), Peugeot 408 (3008) e Hyundai Elantra (Tucson) são exemplos que até me fariam calar a boca. A Mitsubishi, aliás, foca toda a sua linha nos utilitários. Só que estes três modelos citados entre parêntesis já foram reestilizados (o Peugeot 3008 passou apenas por um face-lift) e precisam ser atualizados logo no Brasil. 


O Volkswagen Jetta ainda não morreu (pode ser um dos próximos), mas terá o chinês fabricado na Argentina Taos como equivalente. Ele também substitui o Golf, que na Europa tem o T-Roc como alternativa. E este ainda tem uma versão conversível. O Tiguan também pode ser classificado como similar do Jetta, mas agora está mais próximo do Passat, que também morreu. Só que aguarda o face-lift no Brasil. O Touareg, que hoje está mais próximo do extinto Phaeton, também não veio. 


O Kia Cerato também pode ser mais uma "vítima" do Toyota Corolla, mas, pelo menos tem o Sportage, que está próximo de receber uma nova geração este ano (no exterior). No Brasil, ainda não está confirmado. 


Em breve, o Honda Civic será apenas importado na próxima geração. Provavelmente, custará mais caro e também é possível que saia da briga contra o eterno rival. Seu similar é o CR-V, que anda esquecido no mercado e não se sabe se continuará à venda por aqui. 


Nissan X-Terra


O penúltimo caso é o da Nissan, que costuma anunciar que vai dar prioridade aos utilitários e picapes, mas continua trazendo sedãs. Nada de Qashqai, X-Trail ou X-Terra. O único SUV da sua linha vendido no Brasil é o pequeno Kicks. Em breve, terá o Magnite, ainda menor, um projeto barato, herdado da Datsun, que vai substituir o March. Já a linha de sedãs, além do Versa, terá o novo Sentra. 


E fechamos com o protagonista da matéria do UOL: o próprio Toyota Corolla, que é líder de mercado entre os sedãs, mas pode morrer no futuro se  confirmar a tendência dos SUVs. Seu similar verdadeiro é o RAV4, que é vendido no país somente em versão híbrida e é muito caro, na faixa dos R$ 240 e 260 mil. Mesmo assim, ainda não dá para considerá-lo como similar ao Camry. Este papel é do Land Cruiser, uma evolução do velho Bandeirante, que não é vendido oficialmente no Brasil desde 2009, com a versão Prado.

 

Toyota Corolla Cross


Para fazer frente ao Jeep Compass e poder dizer até no nome que é o similar do Corolla, a Toyota vai trazer da Tailândia o Corolla Cross, mais um de um país asiático emergente. Poderia vir o C-HR, que apesar do estilo estranho e ser compacto, é europeu. O Yaris Cross, já apresentado no Guscar, está previsto apenas para 2024. 


Segundo as montadoras, sedãs, hatches e peruas estão em extinção  porque o consumidor está migrando em massa para os utilitários. Mas a oferta de modelos da categoria da moda no Brasil, seja de compactos, médios ou principalente grandes, é muito limitada. Será mesmo que os consumidores estão preferindo os SUVs ou falta boa vontade para trazê-los ao nosso discriminado mercado? Enfim, a hipocrisia! 


FOTOS: DIVULGAÇÃO




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