Atualmente, o modelo familiar da Citroën vendido no Brasil é o C3 Aircross, que possui sete lugares. Tem um estilo quadradão, desenhado na Índia, e desatualizado, pois, na Europa, a frente já segue o novo padrão estético da marca francesa, inclusive com o novo emblema oval. Aqui, ele ainda tem a dianteira em dois níveis, com faróis rebaixados e frisos da grade acompanhando o "double chevron".
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| C3 Aircross nacional atual |
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| C3 Aircross europeu atual |
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| C3 Aircross nacional atual |
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| C3 Aircross europeu atual |
Entretanto, há quinze anos, o Citroën para a família era o C3 Picasso, de estilo reto, mas com cantos arredondados. Ele era a base do Aircross, uma versão aventureira, com estepe na traseira e que chegou um ano antes do Picasso, este lançado em 2011.


Junto com o Aircross, o C3 Picasso era fabricado em Porto Real, aqui no estado do Rio. Por incrível que pareça, era ligeiramente mais moderno na dianteira que o original europeu, que tinha a área entre os faróis fechada. Aqui, o mesmo espaço era aberto e a grade emoldurava o símbolo da marca. O nosso projeto acabou servindo de face-lift na Europa, que, ainda assim, ficou mais moderno com a grade mais fina. O para-brisa se fundia com a coluna A escurecida e o "quebra-vento" e parecia panorâmico na horizontal visto de fora. Na traseira, uma economia típica brasileira: a tampa do porta-malas tinha a placa na lateral direita porque era a mesma do Aircross, que tinha estepe. Faróis e lanternas traseiras na coluna eram os mesmos do europeu. Media 4,09 metros de comprimento, 1,72 m de largura, 1,63 m de altura e 2,54 m de distância entre-eixos.
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| C3 Picasso europeu pré-face-lift |
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| C3 Picasso europeu com face-lift |
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| C3 Picasso europeu pré-face-lift |
Por dentro, o nosso era mais atrasado. Painel escuro com muito plástico duro, três saídas de ar centrais circulares, com moldura cromada. A tela multimídia opcional era destacada no alto da bancada. Os instrumentos eram analógicos. No europeu o estilo era mais moderno, com velocímetro digital no centro do painel. Mas o interior era espaçoso, embora o porta-malas tivesse apenas 403 litros.
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| C3 Picasso europeu pré-face-lift |
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| C3 Picasso europeu face-lift |
Começou a ser vendido com o motor 1.6 de dezesseis válvulas flex, com 110 cavalos com gasolina e 113 cv com álcool. Acelerava de 0 a 100 km em 12,9 segundos e recuperava entre 80 e 120 km/h em 18,7 segundos. Era demorado, mas fazia frente à Fiat Idea, uma de suas principais concorrentes. A frenagem a 80 km/h era feita em 26,3 metros e superava também a Chevrolet Meriva, outra adversária da época. Mas seu consumo era muito alto com álcool. Percorria apenas 5,6 km/litro na cidade e 8,2 km/l na estrada, ficando atrás das duas rivais. O nível de ruído de 60,6 metros a 80 km/h era razoável. Os dados eram da revista Quatro Rodas.
As primeiras versões eram a GL, que custava R$ 47.990, GLX, por R$ 50.400 com câmbio manual de cinco marchas e R$ 53.900 com o automático de quatro velocidades e a top Exclusive, por R$ 57.400 com câmbio manual e R$ 60.400 com o automático.
Desde a versão GL vinha equipada de série com ar condicionado, direção hidráulica, computador de bordo, vidros elétricos na frente e atrás, bancos traseiros rebatíveis 1/3 e 2/3, porta-luvas refrigerado e com iluminação, chave-canivete, aviso de cinto de segurança não encaixado e tomada de 12 volts dianteira.
A GLX tinha rodas de liga leve, maçanetas das portas prata ou na cor da carroceria, faróis de neblina dianteiros, CD player com entrada para iPod, mesas tipo avião e, como opcional, duplo airbag. Com a opção automática apareciam os freios com sistema ABS (antitravamento) e EBD (distribuição eletrônica da frenagem), além do acendimento automático do pisca-alerta em caso de frenagem abrupta. Eram tempos em que esses itens de segurança ainda não eram obrigatórios.
A Exclusive trazia ar-condicionado digital, bancos de couro, CD player com viva-voz por Bluetooth, entrada USB e para iPod, airbag duplo, controlador e limitador de velocidade, volante de couro com detalhes cromados, sensor de estacionamento traseiro, acendimento automático de faróis, para-brisa com sensor de chuva, apoios de braço centrais dianteiros, entre outros itens. Airbags laterais dianteiros e o sistema de navegação MyWay com tela colorida de 7 polegadas eram opcionais.
Eu falei que o C3 Picasso começou a ser vendido e mencionei primeiras versões porque em 2012 chegaram o motor 1.5 flex de 89 cv com gasolina e 93 cv com álcool e o 1.6 foi renovado, passando a render 115 e 122 cv, com direito a sistema Flex Start, que eliminava o tnaquinho de gasolina para partida a frio.
Em 2014, para a linha 2015, as duas versões mais baratas passaram a se chamar Origine e Tendance. A top continuou sendo a Exclusive.
O brasileiro é um povo estranho. Aircross e C3 Picasso são praticamente o mesmo carro. Mas o modelo com aparência aventureira vendeu e durou mais que a versão urbana. Teve média de 6.577 contra 4.294 unidades vendidas do Picasso. Mesmo que quem comprou nunca tenha usado o carro fora da estrada. Alguns usaram até como táxi ou transporte por aplicattivo. Enquanto o Aircross ganhou um face-lift e durou até 2020, o C3 Picasso não passou de 2015.
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| C3 Aircross com face-lift em 2016 |
E desvalorizado. Usada, a versão Exclusive 1.6 do último ano de produção vale R$ 39.868, menos do que custava na época do seu lançamento. Tinha mais pontos fracos do que fortes. Entre seus defeitos, além do já citado consumo alto, estavam manutenção e peças caras, escassez das mesmas e da mão de obra e do câmbio com marchas muito curtas.
Quinze anos depois, o C3 Picasso só é lembrado por ter usado a grife do famoso pintor. O aventureiro Aircross deve ter deixado mais saudades.
TEXTO: GUSTAVO DO CARMO | FOTOS: DIVULGAÇÃO
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