O Fiat 500 clássico, fabricado entre os anos 1950 e 1970, nunca teve uma história no Brasil. Assim como o Mini Cooper. Mas isso não impediu que as releituras destes modelos, feitas no século XXI, fossem importadas para o nosso país. Inclusive o modelo italiano está de volta com motor inteiramente elétrico e custando salgados 240 mil reais. 

E mais um modelo sem história por aqui tem a sua nova versão lançada em nosso mercado: o utilitário esportivo Ford Bronco, nome que os brasileiros só conhecem pelo personagem do saudoso humorista Ronald Golias. Fabricado e vendido nos Estados Unidos de 1966 a 1996, também ficou famoso por ter sido o carro que o ex-jogador de rugby americano O. J. Simpson usou para fugir da polícia que queria prendê-lo pelo assassinato de sua esposa.  


Mais do que trazer a história do Bronco para o Brasil, a Ford está inaugurando uma nova fase de sua atuação nonagenária em nosso país. O novo utilitário médio-grande é o primeiro lançamento da marca norte-americana desde que ela fechou as suas fábricas em São Bernardo do Campo, Taubaté, Camaçari e Horizonte (que fabricava o Troller T4, marca cearense que a Ford matou) para se tornar apenas importadora. 

Construído sobre a plataforma C2, usada na quarta geração do Ford Focus, o Bronco Sport chega importado do México em versão única chamada Wildtrak, top de linha na América do Norte, com motor 2.0 Ecoboost de 240 cavalos, com turbo e injeção direta, o mesmo que equipava o Fusion, só que com oito cavalos a menos.


Custando R$ 264.690, seus concorrentes serão os novos Volkswagen Taos e Toyota Corolla Cross e o faceliftado Jeep Compass. Mas, pelo preço, vai brigar com modelos de luxo como o Audi Q3, Mercedes GLA e BMW X1. Ou com modelos maiores como o Volkswagen Tiguan Allspace, Honda CR-V, Peugeot 3008 e Chevrolet Equinox. 

O sobrenome Sport, aliás, foi adotado para diferenciar esta versão, mais urbana e identificada com o mercado mundial, do Bronco puro, construído sobre chassi de longarinas, focado no off-road selvagem norte-americano, que vai concorrer com o Jeep Wrangler. 

A seguir, a análise ponto a ponto do novo Ford Bronco Sport Wildtrak. 


Estilo


Bronco 1965

Um dos charmes do Bronco Sport está na frente de cantos arredondados onde se destaca o nome do modelo em vez do emblema Ford na grade com furos tracejados. A assinatura é envolvida pelas luzes diurnas de LED que brotam dos redondos projetores também em diodo emissor de luz. O conjunto visual foi inspirado na primeira geração do utilitário, de 1965, onde os faróis redondos eram halógenos e as luzes diurnas eram as luzes de direção. 


No novo Bronco rústico, a grade é mais reta e com conjunto ótico totalmente arredondado, mas o Sport tem um par de lentes transparentes retangulares ovaladas. O outro atrativo estético é o teto de cor diferenciada e em dois níveis, deixando uma parte mais alta na lateral lembrando o primeiro Land Rover Discovery. As lanternas traseiras são trapezoidais verticais, com luzes de LED apenas no contorno, e a tampa do porta-malas tem vários baixos relevos com a assinatura Bronco Sport dentro do vinco superior. O emblema oval azul da Ford finalmente aparece no canto esquerdo da tampa e somente ali. O vidro traseiro também é bem reto e abre separadamente da tampa. O botão de destravamento também é separado na maçaneta: um lado para a tampa e outro para o vidro. Um detalhe mais aventureiro são as dobradiças bem aparentes no alto do vidro. 



Com linhas retas, o Bronco Sport não foi desenhado para ser bonito e, sim, para encantar proprietários que gostam de off-road, ainda que muita gente vá usar o carro na cidade e nos shoppings. Por isso, preferi não dar nota para o seu estilo, que agrada, mas achei melhor deixar esta avaliação para um futuro comparativo. 


Acabamento
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Fãs de borracha no acabamento não vão poder reclamar. O material derivado da seringueira está presente no painel, portas e piso dos porta-objetos e porta-malas, até para evitar sujeira de lama para quem vem da praia ou da cachoeira. Mas tem muito plástico duro também, inclusive na maçaneta interna que não é cromada como esperávamos. Se fosse só a maçaneta passava, mas a falta de iluminação no porta-luvas foi a gota d'água para tirar uma estrela da avaliação, mesmo compensado pelo porta-revistas forrado com espuma e fechado com zíper atrás dos bancos dianteiros, as diversas tomadas domésticas de 110v espalhadas pelo habitáculo e os porta-trecos embaixo dos assentos do banco traseiro. A iluminação do porta-luvas foi parar na tampa do porta-malas, para que o dono trabalhe sobre a prateleira montada no bagageiro, que divide o espaço em dois níveis. 


Com um estilo rústico por fora, o painel interno também tem desenho simples, mas com alguma criatividade. É horizontal no formato, mas as saídas de ar são verticais. Os difusores centrais apertam a tela multimídia, que parece embutida entre eles, ao mesmo tempo em que uma parte é flutuante. Abaixo dela estão os botões funcionais do carro e do rádio e, mais abaixo, um vão que serve de porta-objetos. Finalmente, na parte inferior aparece os comandos do ar condicionado digital. O quadro de instrumentos só tem tela eletrônica no meio. Velocímetro e conta-giros são físicos. No volante se destaca, em cromado, o "cavalo bronco dando coice" no lugar do emblema Ford, que só está presente naquele canto da tampa do porta-malas mesmo. 


Espaço interno 
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No espaço interno, começo a comparar o Bronco com os seus principais e mais recentes concorrentes: Volkswagen Taos, Toyota Corolla Cross e Jeep Compass. Com números da revista Quatro Rodas, o novo SUV da Ford só não tem uma boa largura, tanto à frente, quanto atrás. Na faixa dos 140 cm (145,5 na frente e 141,2 atrás), perde para os três rivais, que chegam aos 150 cm e são mais estreitos por fora do que o Bronco (1,94m de largura contra a faixa de 1,80 m dos outros). No espaço para as pernas no banco traseiro, só é mais apertado que o Taos. São 93,7 cm do Ford contra 95 o modelo sino-argentino da marca alemã. O Bronco também é o maior na altura nos dois ambientes, sendo o único que ultrapassa um metro, sendo 105,9 cm atrás. 


Porta-malas
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A exemplo do espaço interno para as pernas no banco traseiro, o Bronco Sport, com 482 litros de capacidade, só perde no porta-malas para o Taos, que tem 498 litros. Atrás do Ford, com pequena diferença está o Jeep Compass, com 476 litros. O Corolla Cross tem 440 litros. Um rival que tem motor semelhante é o Land Rover Discovery Sport (um xará no sobrenome). O modelo inglês, entretanto, tem porte bem maior (comprimento de quase 4,60 metros e entre-eixos de 2,74 m contra 4,39 m e 2,67 m do Bronco), mas seu porta-malas tem apenas 454 litros.


Motor
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O motor 2.0 Ecoboost, com turbo e injeção direta, é o mesmo que equipava o sedã Fusion, que deu lugar, em nosso mercado, ao Bronco Sport, pois a marca americana preferiu, globalmente (menos na Europa), focar nos SUVs. Daí a minha teoria de que o utilitário será mais usado na cidade do que no off-road: por falta de opção.

O Fusion tinha 248 cavalos desde o discreto face-lift de 2016. Já o Bronco tem oito cavalos a menos e a mesma potência que o sedã tinha na época do seu lançamento (240 cv), embora algumas fichas técnicas digam que eram 234 cv.  

O torque de 38 kgfm a 3.000 rotações também é o mesmo do Fusion 2017, mas quando este tinha potência igual ao do Bronco na primeira versão, a força do motor era 600 gramas maior e ainda vinha mais rápido, em 1.750 rpm.


Agora, contra os rivais, o motor do Bronco sobra, tanto em potência quanto em torque, quando comparado ao Volkswagen Taos 1.4 TSI (150 cv e 25,5 kgfm a 1.500 rpm), ao Jeep Compass 1.3 Turbo (180/185 cv e 27,5 kgfm a 1.750 rpm) e ao Toyota Corolla Cross 2.0 (169/177 cv e 21,4 kgfm a 4.400 rpm), todos flex, o que o Bronco Sport não é, pois é movido só a gasolina. O Ford também supera os 220 cavalos do motor 2.0 TSI do Volkswagen Tiguan, que ainda receberá um novo lote do México com face-lift. Já comparado ao Discovery Sport 2.0 Turbo (249 cv e 37,2 kgfm a 1.250 rpm), o utilitário da Ford perde na potência, mas vence no torque, embora este seja alcançado mais rápido no Land Rover, que também pode ser abastecido com álcool ou gasolina. 

Um detalhe: apesar da potência próxima e configuração igual (2.0 Turbo), o Ingenium do Land Rover Discovery não é o mesmo Ecoboost do Bronco. Mas já foi. Era usado até 2018, inclusive com os mesmos 240 cavalos. Até que a indiana Tata, dona da Land Rover e da Jaguar, desenvolveu o seu próprio motor para as duas nobres marcas britânicas.  


Câmbio
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O Bronco Sport tem transmissão automática de oito marchas, sem alavanca de câmbio (a seleção de funções são feitas num botão giratório) e com tração integral com seletor de pisos GOAT Modes (de "Go over all terrain" ou "Vá sobre qualquer terreno"), que gerencia o comportamento do motor, acelerador, câmbio e assistência da direção elétrica no tipo de piso selecionado como Eco, Normal, Escorregadio (para neve), Areia, Lama e Rochas, além do esportivo. 


Em relação ao número de marchas, só perde para as dez simuladas do CVT do Corolla Cross e as nove do Land Rover Discovery Sport. 


Capacidade fora de estrada
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Descendente do Bronco original dos anos 60, o Bronco Sport nasceu para ser aventureiro mesmo. Principalmente no estilo, o qual me isentei de avaliar. E também na proposta. Com ângulo de ataque ou entrada de 30,4º, central de 24,4º, saída de 33,1º e vão livre de 22,3 cm, o modelo da Ford supera todos os concorrentes em ataque, central e vão livre. Inclusive o Land Rover (25º, 20,6º, 30,2º e 21,1 cm). Só perde em saída para o Corolla Cross, que tem 36º e no vão livre pelo Mitsubishi Pajero Sport  (30º, 23,1º e 24,2º), um modelo da marca mais identificada com off-road do nosso mercado, que tem 23,6 cm, mas com os ângulos divulgados inferiores ao do Bronco Sport. 


Desempenho
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Com aceleração de 0 a 100 km/h em 7,8 segundos e retomada entre 80 e 120 km/h em 5,8 segundos, o Ford Bronco Sport deu um show na pista da revista Quatro Rodas e supera quase todos os concorrentes aqui já mencionados, incluindo o Discovery Sport, que só acelera em 9,4 segundos e retoma em 6,7 segundos. Taos e Compass e Corolla Cross aceleram na faixa dos 10 segundos e retomam na faixa dos sete, sendo que o Toyota ficou abaixo disso. Só perde para o Tiguan, que acelera em 7 segundos e retoma em 4,9 segundos, mas não perde pontos porque o Volkswagen é de um porte maior. 


Consumo
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O vigor que o Bronco tem para deixar os concorrentes para trás custou um alto consumo. Com 8,5 km/litro na cidade e 12,3 km/l na estrada, segundo a revista Quatro Rodas, mesmo com gasolina no tanque, único combustível permitido, o Ford só não gasta mais combustível que o Volkswagen Tiguan, com quem praticamente empata (8,7 km/l e 11,8 km/l), e o Land Rover Discovery Sport (6,8 km/l e 10 km/l). Taos, Compass e Corolla Cross são bem mais econômicos, mas prefiro citar os números destes num futuro comparativo. 


Segurança
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Em relação aos itens de segurança, o Bronco Sport é bem completo. É equipado com nove airbags (frontais, laterais dianteiros e traseiros, cortina nos dois lados e joelho do motorista), alerta de colisão com aviso luminoso e sonoro, detecção de pedestre com frenagem autônoma, assistência de permanência e centralização em faixa e monitoramento de ponto cego. 


Mas na frenagem seu desempenho foi mediano, apesar de ficar abaixo dos 60 metros a 120 km/h. Com 59,3 metros a 120 km/h, de acordo com a Quatro Rodas, ele fica atrás dos Volkswagen Taos (54,6 metros) e Tiguan (57,7 metros), além do Toyota Corolla Cross Hybrid (58,3 metros). Já o Jeep Compass, o Corolla 2.0 e o Land Rover Discovery Sport ficaram acima dos 60 metros, sendo o inglês o pior deles. 


Conforto (Nível de Ruído)
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Eu achei 61 decibéis a 80 km/h e 67,6 decibéis a 120 km/h, segundo a Quatro Rodas, um pouco alto. Mesmo assim, o Ford Bronco só perde para o Corolla Cross Hybrid a 80 km/h (59,9 dBA), um pouco para o Taos (67 dBA) a 120 km/h e para o Tiguan nas duas velocidades (60,5 e 66,6 dBA). 


Preço
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Custando R$ 264.690 na versão única Wildtrak, o Bronco Sport é caro em relação a cinco rivais de marcas populares como a própria Ford: Chevrolet Equinox (R$ 195.750 na versão única Premier 1.5 turbo), Jeep Compass (R$ 203.490 na versão Série S 1.3 Turbo), Volkswagen Taos (R$ 186.690 a Highline 1.4 TSI) e Tiguan Allspace (que ainda ganhará a versão com face-lift, sendo que a atual R-Line, versão única com motor 2.0 TSI sai por R$ 236.090) e Toyota Corolla Cross (R$ 192.690 na versão Hybrid Special Edition). Em relação ao Peugeot 3008, o Bronco se posiciona entre as duas versões do francês (Griffe por R$ 246.690 e GT-Pack, R$ 271.690, ambas com o motor 1.6 THP). Já o Honda CR-V (em versão única com motor 2.0 turbo por R$ 264.900) é pouco menos de 300 reais mais caro. O Bronco custa mais que o Toyota Corolla Cross, mas é mais barato que o RAV4 (R$ 282.490 na versão Hybrid SX, que agora é única), que também é híbrido, só que o motor elétrico combina com um propulsor a gasolina 2.5, enquanto o Corolla usa o 1.8 Flex. 

Na apresentação à imprensa, a Ford classificou como principal concorrente o Land Rover Discovery Sport SE 2.0, primeira versão intermediária que custa R$ 341.215. A mais barata é a S, com o mesmo motor, por R$ 310.971. No entanto, há outros modelos de marcas premium mais baratos que o Discovery e até um mais em conta que o Bronco, como o Audi Q3 Prestige Plus 1.4 TSI, que custa R$ 252.652. Depois, o mais próximo, já mais caro que o Ford, é o Mercedes GLB Advance 1.3 turbo, de sete lugares, por R$ 268.106 e, finalmente, o BMW X1 sDrive20i 2.0 turbo, que sai por R$ 269.950. Todos estes modelos premium são maiores que o Bronco Sport. 

Como a Ford (ainda) não é uma marca premium, seus rivais verdadeiros são o do primeiro parágrafo. Logo, o Bronco, por mais qualidades que tenha, é um SUV caro. 


Equipamentos
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Além dos itens de segurança já citados no respectivo tópico, o Bronco Sport Wildtrak é equipado com faróis full-LED, teto solar elétrico, trio elétrico, ar condicionado digital de duas zonas com saída para a traseira, banco do motorista com ajuste elétrico de 8 posições, piloto automático off-road, monitoramento de pressão dos pneus, acendimento automático dos faróis, sensor de chuva, câmera de ré, câmera 180º, carregador por indução, entrada e partida sem chave, freio de mão eletrônico, piloto automático adaptativo, reconhecimento de sinais de trânsito, assistente de estacionamento, aplicativo Ford Pass, que permite o travamento e destravamento do carro, ligar o ar condicionado e dar partida do motor, alertar o acionamento do alarme e do funcionamento do veículo pelo celular, sistema de som premium Bang & Olufsen com 10 alto-falantes e sistema multimídia Sync 3 com GPS integrado, mas compatível com Apple e Android e com comandos de áudio e voz no volante. E esses são os mais tecnológicos para um carro de mais de 260 mil reais. 


Claro que também não poderiam faltar os triviais ajuste de altura e alcance do volante e o trio elétrico, como vidros, travas e retrovisores, presentes até em hatches populares. Assim, e ainda com os nove airbags, o Bronco Sport é quase completo. Porém, perdeu uma estrela na avaliação. Não porque economizou no acabamento da maçaneta e na falta de iluminação do porta-luvas. Mas porque a Ford se esqueceu de colocar um rebatimento elétrico nos retrovisores externos. 


Conclusão
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Pelo menos nos números, o Ford Bronco Sport provou que faz jus ao nome e a sua proposta, tanto no motor e desempenho, quanto na capacidade fora de estrada. Ele também apresenta bom acabamento, muita versatilidade com as prateleiras moduláveis e tomadas caseiras no porta-malas (que também tem bom volume) e as luzes direcionais na tampa do mesmo, espaço interno, segurança passiva e equipamentos ligeiramente autônomos.

Entretanto, o seu maior defeito técnico é o alto consumo. Já no preço, a culpa é da Ford, que agora acha que é premium e está pedindo demais pelo Bronco, por mais que ele tenha qualidades. Ou seja, é caro em relação aos seus verdadeiros concorrentes, mas é mais barato que modelos da Mercedes, BMW e Land Rover. E quem tem dinheiro para comprar algum modelo dessas três marcas não vai deixá-las de lado para levar um Ford. Se fosse mais barato, teria um custo-benefício excelente para o primeiro lançamento da sua nova fase como importadora. 


TEXTO: GUSTAVO DO CARMO | FOTOS: DIVULGAÇÃO
DADOS DE TESTE: REVISTA QUATRO RODAS